sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

e eu não sou maior que o mar

que te levem até a beira de toda aquela água, falem sobre a violência e a calmaria, o gelo cortante do dia e o quente e aconchegante da noite; a companhia do sol e a sensação que se tem ao entrar lá de olhos fechados..

que te coloquem medo. Que te encantem e digam: 'Você tem o que precisa. Pés, mãos, corpo. Agora é só pular'.

que te deixem reunir toda a coragem, que te façam não querer mais pensar no 'e depois que eu pular?'. Que deixem seu medo em stand by em troca do encanto do infinito que se esvai a cada segundo perdido e, ainda assim, não deixa de ser infinito..

que te mostrem tudo o que você quer: viver de acordo com o que sente.
E que, a partir disso, você se decida..
E então chega mais perto, põe as nadadeiras, respira fundo, fecha os olhos e três, dois, um
chega a hora de pular

e você sente um puxão para trás.

e lembra de quando o Caio Fernando Abreu dizia:
'cuidado com as ilusões, mocinha,
profundas e enganosas
como o mar'
e sente que caiu numa teia
o pior não é se afogar
mas nunca sair da areia

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O medo revestido

Imaginem a cena: dois policiais (de verdade, dessa vez) entram, fardados, em um banco, e clientes e funcionários saem correndo, temendo uma desgraça maior. Parece comédia, não? Mas foi algo parecido com o que ocorreu em uma agência da Caixa Econômica, do bairro da Pajuçara, dois dias após o assalto em outra agência, no Centro, que culminou com a morte de um policial civil e de um vigilante e que tinha um ‘falso policial’ em meio à quadrilha. Conhecemos bem a história.

Não desejo entrar no mérito sobre venda de fardas ou algo que o valha. Em minha opinião, uma farda não distingue a conduta de ninguém, embora essa ilusão nos embale. Um conforto estranho do qual já não me iludo. A distância entre a defesa e o ataque é terrivelmente pequena, e assustadora quando a percebemos.

Ontem à tarde, centenas de pessoas celebravam a Proclamação da República em Marechal Deodoro. E gritavam palavras de exaltação enquanto policiais do Bope apontavam as armas em todas as direções, num gesto simbólico que fazia parte do desfile. Meu coração disparava. Lembrei que aquelas armas, tão próximas de nós, matavam. E que as mãos que as seguravam poderiam atirar a qualquer momento, e várias vezes, em outras ocasiões, atiraram. Em ‘nossa defesa’, dizem. Isso me deu arrepios.

Vamos cair na real. Essa violência amedronta, mas também desperta fascínio, curiosidade, adrenalina, torpor… até chegarmos ao nível clichê de justificarmos as ‘mortes matadas com requintes de crueldade’ cotidianas: Foi tráfico. Foi passional. Foi ladrão. Foi em defesa. Foi loucura. Foi merecida.

Merecida! É isso o que nos faz ser capazes à perversidade. Mas a distância entre nossos comentários e os atos extremos de violência é o único ‘porém’ que faz com que sejamos ‘não tão perversos’. E, lembremos, a distância entre o pensar e o agir.. entre a defesa e o ataque.. é terrivelmente pequena, se é que ela existe. Pessoalmente tenho minhas dúvidas.

A violência atrai e quase nunca estamos alertas a respeito de nossos próprios limites, enquanto apontamos nossos dedos levianos em suspeitas, acusações e imaginamos os castigos mais cruéis para os homens mais cruéis. Acreditamos que, apesar de nossos defeitos, temos direitos de julgarmos, mas esquecemos que, apesar de nossos defeitos, temos a mesma capacidade para amarmos. Se não tivermos medo, é claro. Mas o medo tem nos movido à nos tornarmos essas coisas monstruosas a quem tanto apontamos. Com farda ou não.

domingo, 15 de novembro de 2009

'...Já estanquei meu sangue enquanto fervia..'


bebendo chuva,

resgato

o sal na pele, o sol,
o meu simples
sustentável
complexo
(e perplexo!)
hedonismo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Pra vida valer a pena...

O que me impulsiona a.. sei lá o quê
Ao bem, ao mal, ao sim, ao não, ao vou-não-vou,
(E parei! Fico no meio do caminho)
É exatamente, especificamente..
sei lá o quê

o amor, a dor, o medo,
a aritmética geometria gráfica dos sinais

A pedra, o passarinho

Mas não se preocupem
Vou procurar com muito afinco
Minhas certezinhas pela estrada
Como dois e dois são cinco

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Entre a literatura e os holofotes

(primeiro texto escrito como colunista da revista clipping :p)

Quem acompanhou os quase dez dias da IV Bienal Internacional do Livro de Alagoas deve ter conhecido autores que marcaram a literatura brasileira e mundial, apresentando obras que bem nos lançam a novos ambientes, novos conhecimentos ou mesmo novos modos de observarmos as mesmas paisagens. Mas será que ‘esse tipo de gente’ era o que a maioria dos maceioenses esperavam no evento literário? Bem, vamos ver…

O jornalista, professor e escritor alagoano, José Marques de Melo, por exemplo, lançou o quarto volume da obra que assina como organizador: “Imprensa Brasileira: Personagens que fizeram história”. O livro é um compilado de informações sobre personagens como Nelson Rodrigues, Joel Silveira, Aluísio Azevedo e outros nomes de igual importância na história da imprensa. José Marques ainda esteve em diversos momentos dentro da Bienal, participando de mesas-redondas, de onde abordou temas como a ética dentro do exercício jornalístico, lembrando-nos frequentemente da própria história do Estado em seus discursos.

O escritor francês Stéphane Audeguy trouxe aos alagoanos relatos de suas experiências que deram origem aos seus dois romances. Em A Teoria das Nuvens, ele retrata a história de um costureiro japonês e colecionador de livros, obcecado por estudos sobre as nuvens em meio à catástrofe em Hiroshima.

Já em O Filho Único, de onde foi agraciado com o Prêmio Deux Magots em 2007, Audeguy faz um romance histórico sobre nada menos do que o irmão de Jean-Jacques Rousseau, o libertino François (pois é, Rousseau tinha um irmão!), que fugiu e decidiu viver em meio aos prostíbulos em Paris, geralmente freqüentados por políticos e gente do clero. “Gosto de captar essas brechas para investigar e imaginar o que teria acontecido com o que a história oficial não relata”, comentou durante o bate-papo. Apenas treze pessoas estiveram presentes dentro da sala onde Audeguy mostrava detalhes da obra, contando com o próprio autor e seu intérprete.

Os grandes escritores Ruy Castro e Ignácio de Loyola Brandão emocionaram os presentes com seus discursos. Loyola Brandão impressionou a todos por sua simplicidade e inteligência. Ruy Castro, o leitor apaixonado, mostrou que o motivou ao jornalismo foi, de fato, sua afinidade com as palavras. Desta vez, as cadeiras da plateia estavam razoavelmente preenchidas.

No entanto, foi a última escritora do último dia do evento quem ‘bombou’. Com um ramo de orquídeas ornamentando sua mesa, num auditório lotadíssimo, a atriz Maitê Proença foi ouvida por centenas de pessoas sobre sua vida e sua trajetória, que deram origem aos dois livros: ‘Entre os Ossos e a Escrita’ e ‘Uma Vida Inventada’, isso tudo, após um pequeno tumulto ocorrido na sala José Marques de Melo, que não comportou a quantidade de pessoas que queriam ‘ver’ a atriz global, fazendo com que a organização, inteligentemente,modificasse o local da palestra para o auditório principal do Centro de Convenções.

Aqui, definitivamente, não será questionada, por exemplo, a competência literária da atriz, ou o que foi dito durante a ‘palestra’. Apenas uma pequena ressalva aos comentários dos que estavam sentados nas cadeiras: “Será que vou conseguir tirar foto com ela?”. “Você acha que ela vai falar sobre a história da pensão que ela perdeu?”, e “sobre os portugueses que ela saiu falando mal? Será que ela vai comentar sobre isso?”, “Só saio daqui quando conseguir um autógrafo”..De repente, com seu vestido estampado, loirice acentuada e andar apressado.. "é ela! é ela!"..a escritora? de que livro? é a atriz da novela!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Teoria da minha vizinha



Era um dia qualquer

muitos anos depois da guerra
época em que quando se morre
geralmente se enterra

o lugar pouco importa
quando era inverno, eu abria a porta
muito pequeno, pouco entendia
os doidos costumes da viúva vizinha

Ssentia o cheirinho de chuva
e já corria para minha janela
de lá da varanda já sabia
que sem guarda-chuva, lá vinha ela..

Sentava no banquinho da praça
e lá ficava feliz e parada
minha mãe soltava um murmúrio
'essa não tem medo de ficar resfriada..'

até que um dia, como sempre de bobeira
curioso, cheguei junto à viúva
e perguntei que mania é essa
de tomar banho de chuva

Ela olhou para mim com cara estranha
como se não esperasse esquisita questão
e me respondeu que seu marido foi convidado
a entrar em um campo de concentração

Não sabia o que era isso
e imaginei ser um lugar para gente importante
pensei 'o finado marido da vizinha
seria do tipo que se veste elegante?'

Vocês devem imaginar a surpresa que tive
quando ela terminou a história
disse que o marido subiu pela chaminé
virou fumaça e viajou mundo a fora

"E já prevendo que iria para o tal campo
ele me explicou como as chuvas se formam
disse que o ar quente sobe para as nuvens
e a água cai quando as gotas se chocam"

"E disse 'eu como fumaça que serei
vou esquentar as nuvens e cair junto a elas
sempre que vir os pingos caindo
imagine que sou eu, caindo em sua janela'"

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Caetana


Achava que esses braços, pernas, olhos eram meus
porque os utilizava como bem queria
quando chega perto de devolver tudo isso
eu procuro o que é meu
e não vejo nada

porque eu construí aquele edifício na esquina
juntei meus trocados, comprei meu carrinho velho
sacrifiquei tanta coisa e agora isto:
nada é meu, nem eu

Peraí, alguma coisa aqui está errada
Essas pessoas ao meu redor... quem é esta velha enrugada?
será que meus cálculos estavam errados?
Por que tudo o que passou, para mim, tanto faz?

Devo estar já delirando
O padre acabou de chegar
E a velha enrugada chorosa foi abrir a porta...
Deus, nem creio mais em padres, nem em mim, que coisa tola!
O que estou fazendo nessa cama? é um sonho? Alguma droga?

O padre agora pede pelos meus pecados
E fica jogando essa água, o que é uma tremenda sacanagem
É sem sentido também, por isto estou com vontade de rir
Mas acho que não pega bem, afinal dizem que é meu último suspiro.
Por falar nisso, faz um tempão que não como um suspiro da massagueira...
Por que será que eu gostava tanto daquele suspiro da massagueira?
Era só clara de ovos, açúcar e li...mão...

Nossa, o sono está batendo forte.. separei a palavra li...mão
Lembrei daquela vidente
A vidente que me pregou uma boa
Levou o dinheiro da minha cachacinha do domingo
Bem feito para mim, que acreditei na palhaçada

Bem feito para mim... essas palavras do padre estão mesmo me atingindo...

Já estou dando uma de arrependido... prestes a seguir pro outro lado

- Querida, estou indo para Lado Nenhum... ouviu?
Você pode ir para lá agora também...hehe – falei para velha chorosa, minha esposa.

Acho que foi a única coisa sã que falei em toda minha vida...

Mas ela não entende e está assustada.
Essa coisa de morte.. é só mais uma piada.

Na cadência do samba


A gente devia ter um samba
Para coisas desse tipo, sem nome.
Essas situações indescritíveis
Esses pedaços indizíveis de quase nada
Quase

O samba seria um tanto instrumental

A gente se preocuparia só em sentir
E deixaria os pensamentos da forma mais bruta possível
Quase como um reflexo, um risco

E na hora de nos preocuparmos com o futuro
A gente sambava
Na hora de refletirmos o passado
Tocaríamos o pandeiro
E aí as coisas iriam se liberar por conta própria
O ritmo revelaria nosso estado de espírito
E nos conduziria à liberdade

De sambar o samba que a gente quiser
De dizer o que a gente pensar
Sem frear, sem filtrar
Sem que isso signifique arriscar
Sem medo de queimar na vela..
O samba perfeito de fim de novela.

O samba das coisas que não se anotam em papel
Não se poetizam, não se confundem
Não se conta como em cordel

E esse irrefreável samba
Colorido de fitas de cetim
Poderia até virar valsa.
Pop, jazz, axé

A falta do que dizer
Não nos deixaria em corda bamba
Em sua máxima expressão de liberdade
A gente faria silêncio do samba

A ética que não cabe em um código


Talvez não seja de propósito, essa mania que eles têm de soltar essas frases de efeito que fazem com que a gente engula em seco.

Talvez seja de propósito... Talvez eles queiram que fiquemos realmente constrangidos com as desgraças que eles exibem até mesmo com malícia. Aquela malícia de quem sabe que não fomos parar ali para salvarmos ninguém. A malícia de quem sabe que miséria dá ibope. A malícia de anti-herói que já não crê que o ‘bem vai vencer’, ou que eles vão triunfar e ‘melhorar de vida’ no final da história.

História? Como diz dona Rosa, é viver um dia depois do outro. Sonho? “Que sonho, que nada. O importante é estar com a barriga cheia no dia seguinte”, responde a senhora de 54 anos que descasca sururu durante um dia inteiro para vender por dois reais e cinqüenta centavos ao final da noite.

De certo modo, não é possível que não absorvamos aquela desesperança, mas ela parece nos deixar bem rápido, a partir do momento em que entramos no carro e vamos embora, ou, na melhor das hipóteses, a partir do momento em que a matéria é publicada. “Estamos lá para denunciar esse absurdo”, tentamos convencer a nós mesmos, enquanto que lá dentro, nos confins da consciência, sentimos intimamente que estamos explorando aquela situação, sem darmos nada em troca pela ‘matéria chocante’ que eles nos ‘proporcionaram’’.

Bem, é aí que estamos razoavelmente enganados. Quer dizer, a nossa ‘contribuição’ (o termo verdadeiro seria ‘obrigação’) é dada a partir do momento em que cobramos à pessoa certa uma reposta àquela injustiça; nossa missão é parcialmente cumprida a partir do momento em que conseguimos expor na matéria uma realidade que incite aos que nos lêem buscar respostas, melhorias. Certo que o jornalismo não está aí para ‘educar’, como dizem os bons teóricos. Mas, vamos cair na real, tudo que vemos no mundo nos educa ou deseduca de alguma forma, no liquidificador que é nossa cabeça. Então, se é para acrescentarmos mais informações às pessoas, que tenhamos o pingo de responsabilidade e consciência necessárias para acrescentarmos, de fato, algo que faça com que elas despertem da sonolência dos que contam mortos, dos que simplesmente deixam de acreditar na justiça, limitando-se a comentar com a vizinha do ‘último desvio do deputado”.

E aí talvez a gente chegue à conclusão de que a malícia utilizada nas palavras da dona Rosa, da dona Maria, da dona Francisca, ou do seu José, é a malícia mais ingênua que se pode ter. Porque eles não sabem que, direta ou indiretamente, estudamos quatro anos de universidade, comemos, dormimos, e ganhamos nossos salários graças também ao descascar de sururu dela. Eles não sabem que é, sim, nossa obrigação, em troca disso, denunciar a raiz e a consequência de males como esse.

Eles podem não saber. Mas nós, mesmo que intimamente, com o leve constrangimento dos breves momentos em que estamos junto a eles, sabemos. Ou, pelo menos, eu espero que saibamos...

Enquanto acordo

E eu me desesperei
A procurar quem era
Depois de ter perdido boa parte
Do que tinha

Olhei pro que sobrou
CDs, incenso, flor,
Uma sobrinha roxa, um cachorro, uma bruxinha
Na minha estante e na constante alegria
De ver as letras voarem sobre os livros abertos
Com paginas de sinais e sonhos secretos
Com paginas de mim
Arrancadas por sei lá o que, ou quem
E destinadas a ninguém, a nada.

E a alma,
Com linguagem distante, vacilava
Ao distanciar-se de minhas confusões
E nos corredores dessas bagatelas
Estavam elas: as frustrações
Rodopiando com tamanha maestria
Que ao senti-las, não se poderia
Pensar em outra coisa, senão nestes 'ais'

O mais incrível é que minha paz
Foi encontrada distante do porto
No sufoco das descobertas contínuas
Que se quebram e se transformam
Mostrando que certas coisas não são certas
mas mínimas

Há coisas maiores, sim
E elas estão bem aqui..

Quer Saber
'Quem é
você?'
vocÊ
não vai
nunquinha
saber.

Lobo mau em tempo de eleição


Pode fingir mansidão, satisfação e bom papo
Uma-breve-ação e, depois dela, um hiato...
Pode o bicho se machucar numa armadilha idiota
E realmente estar acuado

Mas não se engane
NÃO SE ENGANE ao vê-lo parado
Lobo que é lobo finge ser cordeiro,
mas nunca deixa a natureza de lado

Religare


- E qual é sua religião?

“E aí, quando cheguei mesmo ao fundo do Poço, ele chegou determinado a me dizer o que eu não queria ouvir, não naquele momento... e me disse que eu não amava a mim mesma como eu pensei que me amava, mas que tinha um vício infantil de imaginar que estava dentro de tudo o que estava ao meu redor: minhas dores, meu amor, meus amigos, minha família, meu cachorro, meus livros e músicas. Ele disse que eu não deveria nunca me conservar parada dentro de um círculo, seja ele qual for, porque isso, na realidade, era egoísmo.

Eu não entendi na hora, sabe. Achei que ele queria dizer para eu abandonar tudo e achei a idéia, no mínimo, absurda. Quis até não dar ouvidos, mas algo cá dentro dizia que não era isso o que ele tentava me falar. Caí na real (embora não tenha sido, definitivamente, uma queda) e tudo ficou tão claro: a despeito de toda minha incompreensão com o que me cercava, eu deveria entender que nada disso gira em torno de mim, e que sequer deveria resumir a “giro” todos esses processos; percebi que o mundo não dá voltas, que ele não se resume a um planeta, e que por mais insegura que fosse, era exatamente nesta incompreensão que deveria apoiar meu ponto de partida.

Aquilo era demais para mim. Pura expansão na surdina..

Mas algumas pequenas coisas que eu fazia mostravam que eu estava, finalmente, captando a mensagem. Abri meus olhos e olhei o outro. Tenho certeza de que, por alguns momentos, entrei no olho do outro e aquela acessibilidade toda só poderia significar uma coisa: realmente estávamos todos ligados e o mundo ligado em nós. E mesmo que pudéssemos encaixar umas coisas nas outras, tudo era esticável demais para se limitar ao nosso vocabulário sempre limitado.

Então voltei para cá e vi tudo novamente: minhas dores, meu amor, meus amigos, minha família, meus livros e músicas. Vi com a alegria de criança que vai ao parque pela primeira vez. E foi como se estivesse de volta e, ao mesmo tempo, não estivesse. Porque embora tudo estivesse aparentemente estático, eu tinha consciência de que nada daquilo me pertencia e as múltiplas possibilidades também eram igualmente palpáveis e quase ilusórias. Descobri que descobrir não é definir ou descrever, mas sentir, mergulhar fundo, olhar ao redor e superar a necessidade de respostas, de entendimento, com a simples força impulsionadora da felicidade de todos...”


- Oiiii.. tô falando com você, mulher! Qual sua religião?

- Ah.. me desculpa...voei aqui! Minha religião é me manter ligada naquele cara que disse para amar aos outros como a mim mesma...

Da Solução














Ora abre, ora fecha

Fechadura entorta

Então deixa de ser porta
E vira janela!

Pequenos desastres



A gente quer sempre mais um pouco

Porque viver não basta
Escrever também não

Entre a louca e o franciscano

A santa e o charlatão

A gente acha que vai longe
E vai tirando os pezinhos do chão

Levanta o amor como bandeira
E leva um tropeção.

Estudo de caso


A gente olha para alma
Profunda
A gente cava o buraco
E afunda
Olha para dentro
E se mede
Entra no beco
E se perde

Senta na cadeira
E balança
Perde a estribeira
E se cansa
Passa pelo mendigo
E pede
Perdoa por isso
E segue

Soa tranqüilidade
E é mentira
Parece de verdade
É plástico
Mas olha para o mar
E se atira
Jura que é náilon
Tem elástico

Não gosta dele
E dá corda
Sonha com ela
E acorda
Não consegue dizer
Mas sabe
Fazer com que tudo
Acabe

Prefere o perfume
Ao incenso
Diz que é leve
É intenso

Diz não à guerra
Mas faz
E reflexo espera
Ser paz

Eu hein..nem pensar..


E se perguntarem por mim
Diz que eu fui por aí
Jogar peteca no barzinho
Plantar bananeira na beira do rio
Ler meus recônditos desvarios

Inventa qualquer coisa
Para não ter que dizer
que de onde estou
Você não pode me ver

que estou indo longe
Enquanto você
Com ajuda de seus querubins
Anda tropeçando e jurando

C
a
i
r

Em si.

Moral da história


Eu sempre perco as pessoas
As pessoas e as sombrinhas


Eu sempre perco as pessoas, as sombrinhas e a hora

As pessoas, as sombrinhas, a hora e os jogos

Eu sempre perco as pessoas, as sombrinhas, a hora, os jogos e a palavra

As pessoas, as sombrinhas, a hora, os jogos,a palavra e a direção

Eu sempre perco as pessoas, as sombrinhas, a hora, os jogos,a palavra, a direção e as chaves

As pessoas, as sombrinhas, a hora, os jogos,a palavra, a direção, as chaves e a cabeça...


Eu sempre me perco no que eu ia dizer...

Coma ou durma bem




Li essa frase pela primeira vez em algum site rastreado pelo Google. Não consegui encontrar em canto algum o contexto real em que ela foi escrita, sequer o autor, mas não deixei de pensar no quão chocante essas palavras, citadas em terceira pessoa, me foram impressionantes.

Eu havia encontrado esta frase sob um ponto de vista religioso (o cara que a parafraseou – Professor MsC Fernando Leocádio - dizia que os protestantes preferiam ter uma boa renda, enquanto que os católicos preferiam dormir sem serem perturbados). Não queria entrar nesse mérito da questão, então, claro, saí questionando a algumas poucas pessoas sobre que diabos significaria essa frase, sob seus pontos de vista, porque o meu já estava previamente formado.

É bastante claro para mim este significado(mas para você pode ser claro de outra maneira): comer bem significa saciar-se financeiramente e dormir bem significa deitar sobre o travesseiro com a cabeça tranqüila. Sob minha ótica, a frase sentencia que ou você come bem, ou você dorme bem. Uma situação não pode co-existir com a outra. Não tem jeito.

Estou sendo radical? Você discorda?

Bem, vamos ver...


Vamos supor, apenas por um breve momento, que comer bem e dormir bem, no mundo de hoje, são situações que podem, sim, estar em conformidade. Eu posso viver tendo tudo o que quero, e dar minha esmola ou contribuição diária, semanal ou mensal, e ficar de cabeça tranqüila porque fiz minha parte. Se virar voluntária de uma instituição, então! Aí sim, São Pedro nem vai hesitar no meu visto para entrar no paraíso.

Acontece que há um grande equívoco conseqüente de toda essa nossa educação deficiente de que dar um pacote de bolachas aqui, e uma moeda ali é ser uma pessoa ‘boa’, ou ‘generosa’. E é a mesma coisa que o cara mais rico do mundo doar milhões para uma casa de caridade. Esses disfarces nunca diminuíram, sequer congelaram, o índice de pobreza absurda constantemente crescente no mundo inteiro. Uma pobreza absurda que só existe porque há riquezas absurdas, ao invés de uma satisfação e suficiência PLENA e para todos (sim, a tal da ‘igualdade’...)

Não adianta. Não vou falar dessa ‘igualdade’ sob o ponto de vista primordialmente político e estratégico (no sentido de obter uma solução prática), sem antes passar pelo território da consciência. Sim, a consciência! É verdade que uma ‘andorinha só não faz verão’, e que as verdades precisam estar construídas na mente de cada cabecinha, por si só, mas “cair na real” e pensar no “todo” não é uma mera questão de opinião (ou de influencia de opiniões). É questão de expandir-se... da consciência coletiva, da consciência de que todos somos, de fato, um. A pura e destilada consciência de que essa engrenagem chamada mundo deve ser movida pela justiça (justiça como meio, jamais como fim).

Sabemos apenas que nesse mundo neoliberal (onde apesar do ‘neo’, a engrenagem já gira enferrujada), “vencer na vida” é mais uma questão de passado familiar, étnico; ou mesmo uma questão de oportunidades, de “esperteza”, do que do esforço propriamente dito (segundo as limitações de cada um). E nem precisamos nos esforçar muito para lembrarmos de filmes e novelas em que uma criancinha pobre e miserável já estava na maior escuridão do túnel quando descobriu ter pais ricos, ou encontrou um bilhete premiado e ganhou uma fábrica fantástica de chocolates e foi feliz para sempre. Você lembra do quanto torceu pela personagem e do alívio porque tudo acabou bem? Bem, as coisas não são assim na vida real (essa que você está vivendo).

As crianças entram no túnel escuro e dele não saem mais. Muitas crianças adoráveis, homens engenhosos e mulheres brilhantes, senhores e senhoras com mais histórias para contar do que supõe minha vã filosofia... todos perdidos, sem bilhetes premiados, sem salvadores, heróis, bem feitores, sem reais expectativas, apenas sonhos (e olhe lá)...

Mas isso não nos toca, claro. Porque não conhecemos essa gente. Estamos protegidos dessa desgraça por nosso castelinho de vidro, por nossa ambição, por nossas drogas e nossas crises existenciais... Ficamos tão vazios por dentro que o que nos resta é procurarmos problemas pessoais e fazer com que a prova de amanhã ou a dor de cotovelo sejam os únicos problemas que nos tiram o sono.

Se conhecêssemos a miséria de perto, aí sim a questão seria muito mais pessoal. É só nos distanciarmos um pouquinho dela, que retornamos ao ponto vazio de sempre. Empurramos a engrenagem para frente com tudo e deixamos nossos irmãos, extensões de nós, esmagados por elas...

Gostaria de dizer que essa frase tem total exatidão: quem come tão bem não pode dormir bem. Mas o pior é que dorme, sim. Infelizmente há um verdadeiro comércio de anestésicos à base de egoísmo. Eu só espero que venha logo o dia em que esse anestésico não faça mais efeito nenhum em meu organismo. Espero que a miséria ‘alheia’ e a desigualdade se tornem questões tão pessoais que machuquem profundamente minha pele, minha espinha – que ela grite que sou eu a responsável por tudo isso – e grite com todo mundo também, para que as razões e as diversas opiniões sejam coisas pequenas para a imperativa e comum necessidade de darmo-nos as mãos.

Eu quero ver a gente consciente, muita gente consciente, junta, sem fome de comida, sem fome de educação, sem fome de diversão, colocando a engrenagem para trabalhar e deitando sobre o travesseiro com o sono tranqüilo de quem fez o certo, de quem fez de tudo, de quem foi ao fundo e não se iludiu com as parecenças.

Só sendo assim, posso até deixar vocês usarem aquele clichê quando eu estiver em meu sono eterno: “que durma bem e em paz”...

Sutilezas desgovernadas



Ainda me surpreendo com um bocado de coisas. Lembro quando realmente pensei que quando nossos sentimentos e nossa disposição eram entregues, também nossa vida estava completamente jogada ao alto, aos braços de um grande filme qualquer. Eu sempre fazia isso. Sempre faço. Claro que vejo todo o jogo, todo o sistema, todo o esquema. Nego, nego, nego até a morte, mas sei que quando as coisas acontecem, elas pedem uma licença bem sutil, e nos negamos a ouvi-la para sermos “pegos de surpresa”. Eu nego, nego, nego a ouvir esses sinais sutis demais. Às vezes não são bom agouro. Às vezes são interpretações errôneas.

Eu sei que podem ser interpretações errôneas porque quando o professor Renalvo pediu para que escrevêssemos uma redação sobre o poema “No meio do caminho tinha uma pedra”, de Carlos Drummond de Andrade, todas as pessoas da minha turma escreveram algo sobre pessoas que encontraram problemas pelo caminho e, daí, a velha metáfora de que “apesar das pedras em nosso caminho”... Eu, com minhas interpretações errôneas e com minha disponibilidade em captar sinais sutis, surgi com a idéia de que o poema significava outra coisa: em meio a tanta coisa enorme, a tantas coisas que nos tiravam a atenção, ele (o poeta) reparou em uma pedra, em uma simples pedra no meio do caminho. Na conclusão da minha redação de 3º ano, decidi que nós corremos demais e esquecemos de olhar para as pequenas coisas. "Drummond olhou e se tornou eternizado", concluí.

Deixe que meus olhos vejam as coisas “pequenas” e finja passar batido. Logo logo, um papo aqui, conversa acolá, elas aparecem de mansinho, mostrando que tudo estava bem guardado e que, mesmo que eu não perceba nessa minha cabeça oca, de vento e brisa, meus poros absorvem. Como absorvem!

Enquanto isso vou puxando a velha e grande enferrujada alavanca de coisas grandes, palpáveis, expressas. Nossas gargalhadas soltas, as lágrimas incontidas, os fatos cortantes, a dança, a bebida, e todas essas coisas das quais entregamos quase tudo. Quase tudo em um instante, em uma pessoa, em uma tentativa, quase tudo de nós para criarmos grandes nós. Mas eu vejo na ponta dos meus dedos um tecido bem fino e dourado que me desprende devagarzinho, que me leva a nenhum caminho, e não deixa meu “abstrato” sozinho.

Que 'eu' que nada...


Quando eu fico de bobeira
E para mim nada ‘fede ou cheira’
Eu sou a ‘flutuante’, a ‘navegante’,
E ‘irritante’ cabeça na lua
A que nunca se insinua

Então ponho os pés no chão
Mergulho no fundo do poço
Arranho o coração
Com profundas e inquietas verdades
E viro ‘maldição’ e ‘densidade’

Eu falo mesmo o que penso
Troco de idéias sem pudor
E de repente já defendo
O outro lado do vetor
E há quem chegue com ardor
E com uma senhora consternação
A apontar os dedos e me chamar
‘Contradição’

E essas crianças que buscam curvas
E se perdem em meus desvios
E carregam grandes fios
Se segurando para não se perder

Sem polêmicas, sem calafrios
Vou saindo de mansinho
Encontrando um passarinho
E escolhendo me abster

O que me torno? ‘cicatrizante’
E nem estou mais aqui para me ver...

Também tenho conversa de botas batidas..


Hoje renuncio aos meus vícios e explosões,
aos meus calos e emoções

A você, que insiste em me denunciar e me derrubar.
Renuncio à necessidade de estar perto
Aos joguetes, às renúncias, às expectativas e às tentativas.
Vou passar um trator sobre a frustração de cada dia.
Sem escutar por trás da porta o que poderia ter sido.

Não quero mais saber de ter que explicar o que não sei
E a sempre querer conversar
para me sentir em um monólogo...

Sinceramente, você me emperra.

Então não espere que eu enfrente suas metonímias
Ou invente precocemente meu epitáfio
Que eu caia em sua retórica por não ter respostas na língua
Ou que eu te ligue, sem ter o que dizer

Já falamos mais do que deveríamos
Não que eu me comporte às regras
Não como você

Já chega de reformas
De reconstruções
Reformulações
Restrições
E restos


Se você não pode fazer com que eu me sinta
melhor
do que me sinto quando estou sozinha,
Não há motivo algum para estarmos juntos.


E apesar de tudo isso parecer um texto bem negativo,
Descobri que a alternativa mais simples do mundo,
e mais efetiva,
quando algo não faz bem,
é deixar para lá... lá longe...

P da vida em um abril de 2008


Bem mais do que os escândalos envolvendo políticos, a imprensa nacional tem noticiado todos os dias, com profunda insistência, o crime contra a menina Isabela, que foi encontrada morta caída do prédio onde moram seu pai e sua madrasta – os principais suspeitos. O caso é bárbaro: trata-se de violência e assassinato contra uma criança de cinco anos, linda, de classe média. Todo o mistério envolvendo o crime tem enchido páginas e páginas de jornais e portais de notícias, o que provavelmente é um prato cheio para quem se esbalda nos romances de Agatha Christie ou para quem não perde um dia de novela das oito. Quem matou Isabela?

Quer algo mais bárbaro do que isso? Milhares de Isabelas, Pedrinhos, Marias e Josés são assassinados por pais, irmãos, vizinhos; desaparecem e só são reencontrados dias depois, mortos; são violentados, estuprados, negligenciados. Provavelmente você nao tomará conhecimento destas crianças, mas direi onde encontrá-las: nos morros, nas ruas, nos barracos e praças. É ÓBVIO que vocês sabem que isto existe.

Mas alguém, por favor, desconfia do quanto é impressionante que estes casos não tenham toda essa repercussão, mas sigam direto para o quadrinho de estatísticas? Sim, porque apenas- e tão somente- quando o número de agressões físicas e sexuais contra crianças chegam na casa dos 40 mil, como ocorreu em 2007 em Alagoas (dados do Conselho Tutelar), aí sim a mídia chega junto. Por que será que o crime que atinge a classe média é tão super chocante, super horripilante, tão...romantizado até? Ah sim, deve ser porque os casos são isolados, são mínimos, são raridades e excessões, perante à cota diária de animalidades envolvendo quem já está envolvido na miséria. Deve ser porque eles já estão acostumados com isso mesmo... mas uma criança branquinha, com um sorriso lindo, de pais de classe média, é absurdo!

Sim. É mesmo um absurdo. Um absurdo que só não é maior do que a disparidade de tratamento dos casos. Não preciso contar quantos casos de filhos que sequer sabem falar e são abandonados, até quase morrerem por desnutrição. Nem contar os casos de mães que permitem que suas filhas sejam violentadas pelos padrastos apenas porque eles sustentam a casa. Nem contar os casos (clichês) de meninos que entram nas drogas ou dos que perdem a vida porque insistiram em não pagar os R$10 ao assaltante.

É de arrepiar não é? Somos hipócritas. A imprensa é hipócrita...E totalmente inconseqüente.

Ao pé da letra


Talvez eu leve mesmo tudo ao pé da letra
Mas pense bem: se eu levasse tudo para os galhos,
Como as letras se alimentariam?
Como se tornariam palavras?
Por falar nisso, estas palavras que você me disse...
Levei um bocado delas para o pé, sim.
Mas joguei fora o que não traria bons frutos

Definitivamente algumas dessas palavras
Não me trariam sabor de jambo, ou de hortelã
Que experimentei por um bom tempo.

Então é melhor que eu mesma me plante
Que eu mesma crie minhas letras
Porque hoje até meu ego é mais desejável do que suas palavras.
Meu ego é terra infértil, mas suas palavras têm sido ervas-daninhas
Danem-se todas elas,
mas fiquem longe da minha plantação.

Reescalando



Você pega a interrogação,

arrasta um pouquinho para o canto,

pega um impulso,
segura na ponta dela
vai escalando
e escorrega

onde você pára??
No ponto
.

E você fica no ponto.

Queda nossa de cada dia

Dentro desse redemoinho estelar em que vivemos,

Eu caio quase sempre em alguma coisa que me despedaça:

Caio no conto do vigário, caio na cilada, caio na farra, caio no sono,

Caio no choro, caio na gandaia, caio no papo e, de repente,

Caio no chão!

(Essa doeu!)

Meus cinco centavos (março de 2008)




















Todos dias, seja qual for a hora, entro em um ônibus como uma minhoquinha. Tento me espremer como uma sardinha. Não adianta fazer pose, estar toda arrumada e penteada, querer chegar intacta ao meu destino e com um sorriso no rosto... Você se descabela mesmo, leva cotoveladas, pisadas no pé, e ainda por cima aquelas freadas bruscas te tiram o equilíbrio. Na hora de sair, então, é o maior descontrole. Você tenta se esquivar de quem está na sua frente (e não vai descer) e Deus queira que a porta do ônibus ainda esteja aberta quando você chegar na porta. Se não, você desce no ponto seguinte, ou alguém vê seu desespero e dá um grito: “Vaaaai desceeeeerrrrrrr... ô motor”. Espetacular! Ahaha. E aí tem tanta gente espremida em um pequeno espaço, que quando você desce, parece que foi de um cuspe, tamanha a pressão. Não é algo humano, sequer animal. Mas tudo bem, isso é coisa da vida.

Relaxo.

Até duas semanas atrás, a passagem de ônibus inteira custava R$1,70. Aumentou, caladinha, para R$1,80. Aumentou o espaço do veículo? A comodidade se tornou humana? Tem mais cadeiras? Climatização? Você tem direito a pegar outro ônibus da mesma linha? Para todas as respostas, meu caro passageiro, NÃO, NÃO e NÃO. O cartel decide aumentar a passagem e dane-se o resto. É a única opção aos que, como eu, não possuem um veículo próprio. Então é isso aí, deitar e rolar sobre as classes C, D... Mas tudo bem, isso é coisa da vida.

Respiro fundo.

Os estudantes, geralmente, são os que mais reivindicam pela estagnação no preço da passagem, mesmo porque deveria haver reais JUSTIFICATIVAS para que a passagem aumentasse. Neste ano, foram poucos os que “invadiram” a avenida Fernandes Lima, reivindicando o não aumento no valor. Como sempre, e infelizmente, não surtiu efeito.

No dia seguinte, na banca de revistas, um cidadão que trabalha todos os dias e não possui carro, segurava um jornal que estampava a foto dos manifestantes, com a seguinte manchete: “estudantes brincam de atrapalhar o trânsito”.

Ainda passava pelo local quando ouvi o leitor, também passageiro de ônibus, comentando: “esses bagunceiros”.

Mas tudo bem, isso é coisa da vida.

Conto até 10...

Nesta manhã, eu não estava com a carteirinha de estudante, que me permite pagar meia passagem, de modo que tive que pagar a passagem inteira, que custa R$ 1,80. Como eu não possuía R$1,80, entreguei ao cobrador R$ 2, 00 e fiquei a aguardar o troco. Ele me devolveu duas moedinhas cuidadosamente viradas – cuidadosamente demais.

Ao pegar as duas moedinhas e olhá-las, me surpreendi ao ver que não tinha vinte centavos, mas quinze. Voltei, toquei no ombro do cobrador e, na maior educação que a minha caríssima mãe me deu, disse: “moço, o senhor me deu quinze centavos, e é vinte”.

Não é surpreendente, no entanto, que o cobrador tenha tentado esboçar um olhar de desprezo. Mas olhei para ele implacável, com um olhar que praticamente o ordenava a parar por ali com aquela “expressão esnobe” e ele se rendeu a me dar o troco certo.

Não, assim não dá.

Isso não é coisa da vida. Aliás. Nada disso é...

Ser tratado de maneira desumana dentro de um lugar pago – não é coisa da vida
Esse depósito de sardinha aumentar o preço, sem justificar com qualquer melhoria no local e continuar te tratando como minhoca – não é coisa da vida.

Algumas sardinhas – a sua maneira – tentarem reivindicar e serem repreendidas por outras sardinhas mais desavisadas – não é coisa da vida

Como se não bastasse, ainda tentarem ‘arredondar’ sei lá o quê, dizer que não tem troco e não te dar o SEU DINHEIRO.. não dá MESMO!

Enquanto não houver uma lei nos Direitos do Consumidor – ou mesmo nos Direitos Humanos - que possa empacar esse tipo de absurdo dentro dos ônibus que sou OBRIGADA a pegar, eu sempre farei o máximo que puder,

nem que seja exigir meus cinco centavos..

Deprê

Vem a grandiosa e imponente mão do destino a jogar o que chamamos de "missão, objetivo, encargo, incubência". Nós corremos e corremos atrás deste objetivo e, ao alcançá-lo, olhamos para o nosso destino e ele continua lá...sorrindo (para nós? de nós?). Então chegamos de volta ao destino segurando nosso objetivo alcançado e, ele nos toma, e o joga novamente. E voltamos ao mesmo lugar.

E, lá na pracinha, Dona Milena não pára de jogar gravetos para seu cachorrinho ir buscar, de rabinho abanando... todo sorridente!

Conversa barata

Minha mãe sempre me alertou para a tal "Lei da Selva", e eu nunca dei importância a isso.

Mesmo agora, que estou começando a conhecer a tal Lei, continuo nem aí...

De qualquer forma, do que adiantou a briga de força entre os dinossauros se foram as baratinhas que se deram bem, no final das contas?

Cotidianas coisas III


"- Se eu conseguir atravessar a pista, antes daquele senhor subir ao ônibus, é porque é melhor viajar, do que ir para aquela festa"

Pois é. Eu tenho esse vício. Pior. Sei que não sou a única. Quantas pessoas não tomam grandes decisões através de “lógicas”, digamos, como esta? “Se tiver mais de dez prateleiras nessa fileira, é porque devo fazer isso, se tiver menos, devo fazer aquilo”. Talvez você pense que isso é uma fuga, uma válvula de escape estúpida para não tomar as decisões baseadas simplesmente na vontade, ou no bom senso, ou na razão. Ou em qualquer rótulo do gênero...

Mas não é



É óbvio que, se alguém me perguntar por que escolhi Jornalismo, por exemplo, não responderei: “Ah, porque consegui andar aquela calçada inteira sem pisar na linha. Mas se eu pisasse em alguma, hoje seria meteorologista!” .

Isso está virando conversa de doido, não é? Mas se você está lendo até aqui, é porque, para o seu pesar, temos algo de comum. Mas logo mais vem o consolo:

Claro que não responsabilizarei os meus passos, a calçada, a prateleira, ou os passarinhos. Embora meu critério tenha sido um tanto peculiar, no fim das contas é tão claro: fiz o que meu íntimo queria. Todos os critérios que adotamos não são absolutamente completos. Para tudo há um pró, há um contra, há um “se”. Até para o ‘tudo’, há um ‘nada’ e um ‘meio termo’.

Se no fim das contas, não temos controle sobre tudo, pelo menos eu não finjo ter...

A tragicômica história da Joaninha


Joaninha, uma velhíssima amiga dos meus tempos de Pé de Jambo, Queimado, Sete Pecados e Escravos de Jó, me surgiu nesta tarde com o seguinte lamento: ‘ai ai..que não encontro esse par perfeito que as novelas tanto mostram. Veja você, amiga Wanessa, que toda vez que me interesso por um moço, ele me vem com uma invenção que me desencanta. Ô sorte.. ô sorte...péssima sorte a minha!’...E Joaninha desata no choro dizendo que é sozinha e que todos os santos esqueceram de criar o príncipe encantado dela, ‘que nem na malhação’, ela completa.

‘Se é bonito, é metido a besta. Se é legal, é feio de doer o olho. Se é bonito e legal, é galinha. Se trabalha, não tem tempo para mim. Se não trabalha, não quer saber do futuro. Se é tímido, me dá agonia. Se é extrovertido, tem amiguinhas aos montes... Mas se é muito perfeito, é perfeito demais, aí também não dá, né?’. E assim ela segue com seu pranto sem fim...

Joaninha se sente A rejeitada, diz que suas exigências são tão simples! O carinha que ela sempre quis jamais deu sinal de vida. Tem que ser alguém que se enquadre perfeitamente, tem que ter e dar a ela tudo o que sempre sonhou. Só precisa ser assim e assado para fazer com que ela seja feliz.

Isso tudo me dá uma pena, sabia? Nem tanto da Joaninha, mas das pessoas que passaram por ela. De todas as pessoas que tocaram na campainha da porta eletrônica do seu coração sonhador e ouviram a secretária dizer “acesso negado”, enquanto ela assistia as novelas da vida e choramingava que sua vida era bem menos interessante. Fico imaginando que deve ter aparecido alguns garotos que realmente quiseram fazer dela uma princesa, mas se depararam com um grande muro de ilusões malucas e caprichos irreais. Joaninha era só porque se afastava. Ou melhor...Joaninha não era só, mas só via a ela mesma...

Mas ei, claro que vou ficar com o ‘bico fechado’. Já pensou se Joaninha me ouve? Vai dizer que sou ‘contra ela’, que não tem amigos e que não, não, não tem sorte mesmo com amizades... Caríssima amiga, baixa essa guarda e se permita. ‘O sonhador tem que acordar’ =)

Tem que ter prazer (ou..meu baú de espantos*)


Ainda morava na Campos Teixeira, quando ganhei da minha tia uma caixinha de fitas cassetes e livros de estorinhas. Tinha lá meus quatro anos e lembro bem da caixinha colorida que me acompanhou até os dez, onze anos... Ficava ouvindo as estorinhas e vendo as figurinhas, doida para saber o que significavam aqueles símbolos. Não sei exatamente se aprendi a ler com elas ou no jardim 2, mas aprendi porque precisava saber o que aconteceria com a Casa que Pensava e com os Quatro Músicos!

Minha mãe conta que eu detestava ir à escola, porque só queriam me dar massinhas e eu não queria saber delas, apenas de livros...Ninguém entendia! Como já sabia ler a essa altura, a psicóloga e a assistente social disseram à minha mãe que me pusesse logo na primeira série, a alfabetização me desestimularia. E foi assim que jamais ganhei o anel do ABC...

Mas tudo bem! Da primeira série, no Santa Rosa, e da segunda série, no Marista, pouco me lembro. Foi lá no Sacramento, na sessão infanto-juvenil da biblioteca, que me fartei! Livros de romance, aventura, suspense... Poderia listar, sem parar para respirar, todas as estórias maravilhosas e escritores preferidos. Aqueles livros nunca me levaram a tirar 10 em nenhuma matéria...eu era a típica aluna nem lá, nem cá... No primeiro ano, eu era super sozinha, ninguém botava fé na caçulinha aqui... Com um tempo, acabei ganhando uns amiguinhos, mas também adorava passar o recreio deitada nas gigantescas almofadas da varanda da biblioteca.

Era tão bom ficar um pouco na pele daquelas personagens! Quantas vezes não chorei com os livros de José Mauro de Vasconcelos, caí na risada ou no “eita poxa” com Fernando Sabino, ou senti aquela angústia de ter terminado rápido demais um Harry Potter! Haviam aqueles livros do colégio, que éramos obrigados a ler. Alguns até gostava, lia logo quando minha mãe comprava os materiais! Um exemplo era Vida de Droga, Walcyr Carrasco.

Na minha infância, costumava jogar chimbra, garrafão e queimado com os amigos do meu irmão. Também brincava de Barbie e de escolinha com minha vizinha. Filmava programas de receita com amiga do colégio, cantava no caraoquê improvisado lá em casa... Meu sonho? ser uma chiquitita! Mas ainda assim, os livros estavam na minha cola. Eu estava na cola deles. Ô amor recíproco, esse!

Do meu grupinho de meninas, todas gostavam de ler. Éramos as ‘ratas’ da biblioteca. Aos 10 anos, minha tia me deu uns livros de literatura do tipo 'Volume Único' que me apresentaram Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Mário Quintana, Manuel Bandeira, Carlos Drummond... Longe de pagode romântico, naqueles tempos de fossa, eu curtia a dor de cotovelo com Clarice Lispector...

Não havia obrigação. Nunca houve. Havia amor, em seu sentido máximo de envolvimento desinteressado. Imaginação, ao estar em todos os cantos que, fisicamente, seria complicado. Viagens não físicas, das quais jamais saí ilesa. Aos pouquinhos, entre aspas e reticiências, me tornei o que sou.

Dia desses, estava eu na Bienal do Livro com um amigo e, ao depararmos com uma coleção de literatura brasileira (com José de Alencar, Machado de Assis), ele soltou essa: ‘bem que esses livros devem ser bons, mas quer saber? Fiquei traumatizado com os tempos de colégio!”

Hoje em dia, os livros têm que ensinar alguma coisa, “dar bom dia ou dizer ‘obrigado’, seja um menino educado”. Os livros preferem trazer questionamento, ignorando a emoção e a imaginação. E o resultado? Nem um, nem o outro! Ninguém absorve algo que não o interessa ou o atrai! Tantas árvores são derrubadas por livros que passam batido. É de dar dó!

Para que seu filho goste de ler, ele tem que ser despertado para um mundo mágico, para um lugar que ele não conhece e para personagens interessantes. Pode até ensinar uma boa lição, mas o livro tem que ser uma extensão na vida e na cabeçinha da criançada! Educação é o modo em que as pessoas ao redor delas agem.


Mas ler,
ler mesmo...
tem que ter fascínio,
ou não haverá bom domínio!



*Baú de Espantos é o título de um livro de Mário Quintana

Se for questão de opinião, essa é a minha.. (finalzinho de 2006)


Passei por muitas e muitas discussões com os outros e comigo mesma sobre o polêmico "Você é a favor ou contra a legalização do aborto?". Apresento-lhes o pensamento que recebeu troféu em minha mente: Sim. Sou contra o aborto. Antes minha opinião era baseada nas mensagens de power point que mostram fetos mortos vítimas de aborto. Achava aquilo horrível e desumano, mas mudei de opinião ao começar a discutir com algumas pessoas e ler sobre o assunto.

Acobertada por um ponto de vista feminista e ultraliberal, entrei naquela onda de que 'a mulher é quem deve decidir', 'ela deve ter o controle sobre seu próprio corpo' e etc... Para completar, ainda imaginava todo um esquema: a mulher que queria ser submetida a um aborto deveria passar uma semana inteira de conscientização com psiquiatras, assistentes sociais (além de ver aquelas imagens terríveis), o que poderia desmotivar cerca de 90% das mulheres. (Pois é, ainda colocava números para dar mais credibilidade aos meus discursos.)


De acordo COMIGO (rs), o aborto clandestino, além de provocar a morte da criança, por ser clandestino e sem qualquer cuidado de um profissional, terminaria por ocasionar o falecimento da mãe também. E pensava: "Por mais inconseqüente que seja, ela não deve pagar com a própria vida por mero 'preconceito' da sociedade". Por fim, ainda afirmava, orgulhosamente, aos quatro ventos: "Sou a favor da legalização do aborto, mas terminantemente contra o aborto. Só acho que a criminalização dele causa mais mortes e não resolve o problema, porque se alguém quiser fazê-lo, o fará da mesma maneira, mas sofrerá riscos de vida".

Quase convincente, hein?


Acontece que mudei de opinião, de novo.


A questão da gravidez indesejada já não pode ser falta de informação (sejamos honestos, não há cristão ou não-cristão que não saiba o que é método contraceptivo, de sua gratuidade, margens de falha, ou da ilusão da tabelinha). Se a concepção tiver sido forçada, em casos de estupro, a lei já não permite o aborto? Quais outros casos sobram? Falha do método (há a pílula do dia seguinte), DESUSO (pura irresponsabilidade, mas também há a pílula para isto). Hoje, creio que criminalizar o aborto não é a solução, mas legalizá-lo aumentaria ainda mais o problema.

O problema em legalizar o aborto seria o crescimento da banalização. Imaginem: o aborto será como um outro método contraceptivo. "Meu amor, para quê camisinha? Qualquer coisa a gente vai ali, na clínica da esquina, e faz um abortinho básico"... Tô mentindo que vai ser assim? Vai ser fácil demais e ainda maior será a inconseqüência.

Eles falam que realmente haveria todo um acompanhamento para a futura-ex-mãe saber o que está fazendo, mas olhemos para a realidade: as maternidades públicas mal suportam atender curetagens, ou mesmo parto. Imaginem toda uma estrutura com tratamentos psiquiátricos e tudo o mais aqui, em Maceió... mesmo no Brasil? Ah, caríssimos... Coloquemos os pés no chão!


A questão dos Direitos Humanos é outro desvio de atenção, outro discurso perfeitinho que tenta justificar a irresponsabilidade da criançada: falam que a mulher não deve ser FORÇADA a ter um filho, ou OBRIGADA a passar por um processo em seu próprio corpo por opiniões terceiras, o que fere a LIBERDADE.
Acontece que o processo que a tal mulher está sendo OBRIGADA a passar foi causado, unicamente, por ela e seu companheiro.

Então não vamos falar bonito sobre valores e direitos como a LIBERDADE da mulher, quando toda essa LIBERDADE atinge algo ainda maior: a VIDA de alguém que não pode se defender sozinho (e, por acaso, a liberdade desse alguém também).
(E olha que nem falei da crueldade e da desumanidade, da maldade, da ...)
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